O Senhor nos visitou e libertou!

Fr. Elionaldo Ecione, O de M/ Reparatoris

MOISES NA SARCA ARDENTEToda a Revelação judaico-cristã se constitui a partir dessas duas palavras: Visitar e libertar! No Êxodo, evento fundante e constitutivo do povo de Israel, o Senhor vê, ouve e sente a opressão dos cativos no Egito e desce para libertá-los (cf. Ex 3,7).

Deus vem ao nosso encontro, portanto nos visita para convidar-nos a comunhão com Ele[1]. A Revelação de Deus se dá de um modo muito concreto e contextualizado na história. Ele vê os cativos e escuta os seus gemidos, sente sua opressão, portanto se compadece e, por isso, desce para libertá-los. Daí podemos concluir que Deus é sensível aos oprimidos e partidário aos fracos.

Essa é a primeira característica do Deus de Israel e é também a principal diferença em relação às divindades dos povos vizinhos. O Deus de Israel (Iahweh) é um Deus presente nas realidades concretas da vida e da história, pois decidiu caminhar com o seu povo e ensiná-lo os seus caminhos (Torá).

Todavia, o Deus de Israel não é um monarca absolutista, Ele conta com a pessoa humana para manifestar o seu amor e a sua graça. Por isso, conduz seu povo na dura travessia do deserto por Moisés e Aarão.

A mediação humana é imprescindível e necessária para compreendermos a Revelação de Deus, pois Deus se revela em categorias humanas. Afinal de contas de que outro modo poderíamos acolher a Deus senão em critérios de humanidade?

A visita dos três anjos a Abraão e Sara é um sinal da presença de Deus que se efetiva com o cumprimento das promessas divinas. Essa visita dos três “homens” misteriosos indica uma ação de Deus na história, que das velhas raízes faz brotar novos rebentos repletos de flores e frutos. Uma descendência numerosa como as estrelas do céu e incontável como as areias da praia.

A história dos patriarcas é marcada pela visita de Deus, que conduz a história a partir da abertura da mediação humana ao projeto divino. Com eles Deus faz Aliança, tornando-os herdeiros de suas promessas.

No Êxodo Deus escolhe um grupo de cativos no Egito, constituindo um povo depositário das promessas divinas e legitimamente constituído pelo direito divino. Deus visita, liberta e leva a um lugar seguro. Esse é o movimento revelador de Deus na história.

Outra visita interessante e ao mesmo tempo marcante é feita pelo anjo de Deus aos justos Tobit e Sara (Tb 3, 16ss), que são curados e libertados dos males que o oprimiam. Tobit recupera a visão e Sara contraí matrimonio com Tobias, filho de Tobit. Deus escuta o clamor dos justos e de todos os temores os liberta (Sl 34,5). Ele está perto dos corações atribulados enfaixa suas feridas e as cura (Sl 147,3).

A manifestação de Deus na história é um ato de justiça, uma ação em favor dos oprimidos, feridos em sua dignidade. Esse é o Deus vivo e verdadeiro, o Deus de nossos pais, de Abraão, Isaac e Jacó. Deus se revela como promotor da justiça e do direito.

No enredo neotestamentário contemplamos a manifestação da extrema solidariedade de Deus, que envia seu Filho para nos salvar. A encarnação é a compaixão extrema de Deus, que assume completamente nossa frágil humanidade. Sendo ele de condição divina, não se apegou a sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens (Fl 2, 6-7). Deus assume a condição de um escravo para entrar em nosso cativeiro e nos libertar das garras do pecado e da morte.

Esse novo e definitivo Êxodo nos fez verdadeiros herdeiros dos bens divinos, pois nos tornamos filhos no Filho de Deus. E por isso, podemos exultar de alegria como o velho Zacarias, que vê o cumprimento das promessas divinas e exclama:

Bendito seja o Senhor Deus de Israel, *
porque a seu povo visitou e libertou;
69 e fez surgir um poderoso Salvador *
na casa de Davi, seu servidor,

70 como falara pela boca de seus santos, *
os profetas desde os tempos mais antigos,
71 para salvar-nos do poder dos inimigos *
e da mão de todos quantos nos odeiam.

72 Assim mostrou misericórdia a nossos pais, *
recordando a sua santa Aliança
73 e o juramento a Abraão, o nosso pai, *
de conceder-nos
74 que, libertos do inimigo,
= a ele nós sirvamos sem temor †
75 em santidade e em justiça diante dele, *
enquanto perdurarem nossos dias.

=76 Serás profeta do Altíssimo, ó menino, †
pois irás andando à frente do Senhor *
para aplainar e preparar os seus caminhos,
77 anunciando ao seu povo a salvação, *
que está na remissão de seus pecados;

78 pela bondade e compaixão de nosso Deus, *
que sobre nós fará brilhar o Sol nascente,
79 para iluminar a quantos jazem entre as trevas *
= e na sombra da morte estão sentados
e para dirigir os nossos passos, *
guiando-os no caminho da paz.

Lc 1,68-79

cena_5_jesus_bdz5t11O carisma de São Pedro Nolasco bebe da fonte da Divina Revelação, pois seu gesto de visitar e libertar os cativos cristãos está no horizonte da Redenção que Cristo nos ofereceu. Em seu contexto, o carisma das Mercês atualizava o gesto redentor de Cristo, que nos visitou com a sua salvação, em continuidade com toda a história salvífica do povo de Deus.

Nessa perspectiva, o jovem Nolasco pode ser visto em seu tempo como um “novo Moisés”, que vê, ouve e sente a opressão dos cativos e por isso, tomado de compaixão ele desce de sua posição de rico comerciante para libertar os cativos cristãos das mãos dos mouros[2] e sarracenos[3].

Nolasco encontra a perola preciosa do evangelho: os cativos, e vende tudo o que possui para resgatá-los. Diferentemente do jovem rico do evangelho, o jovem Nolasco e seus companheiros renunciam todas as suas riquezas, tomam a cruz dos cativos e, desse modo, seguem ao Cristo Redentor.

Como Moisés, Nolasco sabe que a libertação não é tarefa fácil, mas um duro empreendimento, que exige muitos sacrifícios, inclusive a própria vida. Assim como Cristo deu sua própria vida por nós, Nolasco e seus companheiros fazem o voto de dar a própria vida em favor dos cativos cristãos sob o perigo de apostar da própria fé.

Muitos de seus companheiros se tornaram moedas vivas pagando o preço do resgate de inúmeros cativos, que se achava em perigo eminente de renunciar a fé cristã. Essa trajetória em prol da redenção dos cativos indica o caminho de Moisés, de Cristo, nosso Redentor, e também de Nolasco e seus companheiros. Caminho norteado pela visita de Deus que redime, e por isso, trajeto revelador de Deus na história.

escudo4Todo carisma é um Dom do Espírito Santo de Deus para a edificação do seu corpo místico que é a Igreja. Nesse sentido, o carisma das mercês recorda à Igreja o dom da liberdade, que nos faz filhos e filhas no Filho de Deus. E nos revela a caridade redentora de Cristo, que nos permite dar a vida pelos cativos que se encontram nas mais variadas formas de catividade.

O carisma das Mercês protagonizado por Nolasco e seus companheiros resistiu às intempéries do tempo e as contradições da história e se atualizou numa multiforme variedade de expressões, já que no transcurso na história foram surgindo muitas formas de catividade, que degradam e oprimem a vida humana.

O carisma das Mercês já possui mais de 800 anos, pois o jovem Nolasco resgatou o primeiro cativo em 1203, e a Ordem Mercedária está prestes há completar 800 anos, pois foi fundada no dia 10 de Agosto de 1218, na catedral de Barcelona na Espanha.

A fé de Pedro Nolasco e sua prática libertadora foi o maior legado que ele deixou para a família mercedária, para os cativos e para a Igreja, que abriga o carisma das Mercês há quase 800 anos. Hoje os mercedários estão presentes na África, nas Américas do Norte e do Sul, em quase toda Centro América, na Europa e na Ásia com presenças na Índia. E, em muitos lugares do mundo pelos ramos da oliveira de Nolasco que se espalharam e se multiplicaram no transcurso da história.


[1] DEI VERBUM, 2

[2] Mouros são considerados os povos instalados na região da Península Ibérica durante a Idade Média. Os mais conhecidos eram os árabes e os berberes, mas existiam outros. Este termo foi empregado de forma especial no que se refere aos que se encontravam em áreas cristãs por motivo de cativeiro de guerra ou rendição de territórios. No início, os mouros eram aniquilados pelos povos que os conquistavam. Wikipédia, a enciclopédia livre: PARAFITA, Alexandre. A Mitologia dos Mouros. Porto: Gailivro, 2006. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Mouros > Acessado em: 21 jan. 2014.

[3] Sarracenos (do grego sarakenoi) era uma das formas com que os cristãos da Idade Média designavam, equívoca e genericamente, os árabes ou os muçulmanos. As palavras “islã” e “muçulmano” só foram introduzidas nas línguas europeias no século XVII. Antes disso utilizavam-se expressões como “lei de Maomé“, maometanos, agarenos (descendentes de Agar), mouros, etc.

Entretanto, segundo o filósofo e antropólogo Youssef Seddik, os homens não muçulmanos, que, durante séculos após o surgimento do Islã, não tinham o direito de se nomear árabes, chamavam então a si próprios “sarracenos” ou “pagãos”. Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Mouros > Acessado em: 21 jan. 2014.

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