XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano C: Para que servem os milagres?

Por: Frei Raniero Cantalamessa, OFM Cap.

naaman-healedJesus estava caminhando para Jerusalém, na entrada de um povoado foram ao encontro dele dez leprosos. Pararam distante dele e disseram em voz alta: “Jesus, mestre, tem compaixão de nós!” Jesus se aproximou deles e disse: “Ide e apresenta-vos aos sacerdotes”. Durante o trajeto os dez leprosos se viram milagrosamente curados. Também a primeira leitura se refere a uma cura milagrosa de um leproso: a de Naaman, o sírio, por obra do profeta Eliseu. É clara, portanto, a intenção da liturgia de conduzir-nos a uma reflexão sobre o sentido do milagre e em particular do milagre que consiste na cura de uma enfermidade.

De início podemos dizer que a prerrogativa de fazer milagres está entre as mais atestadas na vida de Jesus. Provavelmente a ideia dominante que as pessoas tinham de Jesus, durante sua vida, que mais do que um profeta, era a de alguém que fazia milagres. Jesus mesmo apresenta este fato como prova da autenticidade messiânica da sua missão: “Os cegos veem e o coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam” (Mt 11,5). Não se pode eliminar o milagre da vida de Jesus sem desfazer toda a trama do Evangelho.

Junto aos relatos de milagres, a escritura nos oferece também os critérios para julgar sua autenticidade e seu objetivo. O milagre nunca é, na bíblia, um fim em si mesmo; menos ainda deve servir para exaltar a quem o realiza e por em descoberto seus poderes extraordinários, como quase sempre acontece no caso de curandeiros e taumaturgos que fazem publicidade de si mesmos. É um incentivo e recompensa da fé. É um sinal e deve servir para chegar a um significado. Por isto Jesus se mostra tão entristecido quando, depois de ter multiplicado os pães, se dá conta de que não tinham entendido o “significado”. (cf. Mc 6,51).

miracle_of_the_bread_and_fish-largeO milagre aparece, no próprio evangelho, como ambíguo. É visto em algumas ocasiões positivamente, em outras negativamente. Positivamente quando é acolhido com gratuidade e alegria, suscita fé em Cristo e abre a esperança a um mundo futuro já sem enfermidade e nem morte; negativamente quando é solicitado, ou mesmo exigido, para crer. “Que sinal fazes para que vendo creiamos em ti?” (Jo 6,30) “Se não ver sinais e prodígios não acreditareis”, dizia com tristeza Jesus àqueles que escutavam (Jo 4,48). A ambiguidade continua, de outra maneira, no mundo de hoje. Por um lado há quem busca o milagre a todo custo; está sempre a caça de feitos extraordinários, detendo-se neles e em sua utilidade imediata. No lado oposto, há quem não deixa espaço algum ao milagre; o consideram com certo desconforto, como se tratasse de certa manifestação inferior de religiosidade, sem se dar conta de que, de tal maneira, se pretende ensinar o próprio Deus o que é ou não a verdadeira religiosidade.

Alguns debates recentes suscitados pelo “fenômeno Pe. Pio” tem evidenciado quanta confusão existe ainda acerca do milagre. Não é verdade, por exemplo, que a Igreja considere milagre todo feito inexplicável (disto, sabe-se, está cheio o mundo e também a medicina!). Considera milagre somente aquele feito inexplicável que, pelas circunstâncias em que ocorre (rigorosamente comprovadas), reveste-se de um caráter de sinal divino, isto é, de confirmação dada a uma pessoa ou de resposta a uma oração. Se uma mulher, que nasceu sem as pupilas, num certo momento começa a ver, ainda sem pupilas, isso pode ser catalogado como um feito inexplicável, mas se acontece precisamente enquanto se confessa com o Padre Pio, como de fato ocorreu, então já não basta falar simplesmente de “feito extraordinário”.

Nossos amigos “leigos”, com suas atitudes críticas diante dos milagres, oferecem uma contribuição preciosa à própria fé, porque se mostram atentos as falsificações fáceis nesse terreno. No entanto, também devem considerar uma aproximação acrítica. É errado crer a priori em tudo o que se apresenta como milagroso como rechaçar a priori, sem ter o trabalho de examinar suas provas. Ser crédulo ou incrédulo pode não ser uma atitude tão diferente.

Obrigado pelo comentário. Que o Coração de Cristo lhe guarde!

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